Redes sociais e motores de busca são incapazes de nos definir.

Opinião
3 de maio de 2018

Por Fellipe Freitas

As redes sociais são hoje algo muito diferente da época em que começaram a surgir como fenômeno da internet. Concebidas a princípio como meio de aproximar pessoas e reconectá-las a amigos do passado e familiares distantes, hoje são organizações de mídia gigantes com altíssimo valor de mercado. E tornaram-se parte relevante da rotina de bilhões de pessoas ao redor do mundo, influenciando comportamentos e sendo laboratório de testes sobre a psicologia humana.

Essas empresas substituíram os meios de comunicação tradicionais não apenas como fonte principal de informação, mas consequentemente como destinatárias dos recursos gastos em publicidade. Tudo o que é feito no ambiente virtual vira dados que servem para oferecer aos anunciantes soluções de comunicação direcionadas ao potencial consumidor de um produto ou serviço. Isso já não é mais segredo. Porém, os escândalos recentes sobre compra direta de dados e veiculação de notícias falsas envolvendo o Facebook, o maior representante do segmento das mídias sociais, parecem não ter abalado o poder da plataforma, que continua vendo sua receita aumentar sempre na ordem de dois dígitos.

Pois bem, nossos dados estão irremediavelmente disponíveis nesse modelo de negócios. E os algoritmos que ditam o funcionamento das redes e mecanismos de busca (praticamente sinônimo de Google) acham que nos conhecem melhor que ninguém. Sabem qual é nosso sonhado destino de férias, eventos de interesses ou de especialização profissional. É fácil identificar se estamos desempregados, solteiros, se procuramos informações sobre empréstimo ou crédito imobiliário. Isso porque a conveniência e facilidade dos recursos da web fizeram com que concentrássemos nossas dúvidas, consultas e necessidades cotidianas todas ali.

Será que algo cuja existência é justificada por uma das necessidade mais humanas – a interação – tem nos tornado menos humanos?

A matemática Cathy O’Neil defende em um artigo para o El País que os tais algoritmos tendem a fortalecer um quadro de desigualdade social já bastante complexo. E teme a consolidação de um cenário onde empresas de recursos humanos e instituições bancárias usem, em nome de uma suposta eficiência científica dos números, dados frios e descontextualizados para avaliar um candidato a uma vaga de emprego ou a um financiamento. São critérios e parâmetros novos que essa situação nos traz. Será que estamos preparados para considerá-los de forma inteligente, justa e humana? Pois a culpa não é da internet em si, esse meio incrível de acesso a um mundo de informações e recursos ilimitados, mas do uso equivocado que se faz dela.

Pessoal x Profissional

Mesmo que não usem dados baseados em algoritmos para detectar o perfil de uma pessoa, em menor escala, recrutadores de profissionais têm buscado ou procurado validar a existência de candidatos pelas redes sociais. A imparcialidade dessa avaliação precisa ser considerada com muito cuidado, uma vez que o uso que alguém faz do seu Instagram ou Twitter não deveria ter nenhuma relação com a postura profissional que adota em um ambiente corporativo. Opiniões políticas, comentários pessoais ou a rede de amigos não podem vir a misturar as coisas e prejudicarem o julgamento? Para evitar que as informações que realmente importam se confundam nesse processo, existem redes sociais focadas no aspecto profissional. LinkedIn, Behance ou Pinterest são alguns exemplos de locais na web que disponibilizam as credenciais de trabalho, projetos e portfólios.

A forma como as pessoas usam as redes sociais é objeto de milhares de pesquisas, estudos e teses. O entendimento ainda está se formando, já que trata-se de algo bastante novo e altamente complexo. Nesses ambientes virtuais e percebidos falsamente como anônimos, o usuário tem controle ou não, conscientemente ou não, do que publica e com o que interage. Uns são polêmicos, outros ingênuos, muitos são ativistas e combativos. Uma grande parte age por impulso em busca do prazer dos likes e do reconhecimento. Por isso, o direito ao arrependimento e pelo apagamento do rastro digital de conteúdos que não condiziriam mais com a opinião atual, têm sido alvo de discussões legislativas e ações judiciais que envolvem a privacidade do sujeito virtual.

O bom uso depende de nós

Nossa estreita dependência da internet, com suas redes sociais e motores de busca, nas atividades do dia a dia, sejam profissionais, pessoais, de entretenimento ou de informação parece ser um caminho sem volta. E isso não precisa ser algo ameaçador para a qualidade de vida. O que não podemos permitir é que ferramentas com tanto potencial para libertar nossa criatividade, estimular o pensamento e dar acesso ilimitado à informação transformem-se em meios de opressão, vigilância e manipulação. Educação, conscientização e questionamento precisam estar definitivamente no nosso próprio código de programação para garantir um mínimo equilíbrio das forças que afetam a nós como humanos e como sociedade.

Photo by Jacob Ufkes on Unsplash
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