Escasso, valioso, irrecuperável e à venda. Quanto custa seu tempo?

Gestão
7 de agosto de 2018

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos

O tempo é uma entidade tão abstrata e instigante para a humanidade que o próprio Zeus, deus dos deuses, é filho do titã Cronos, a divindade mitológica relacionada à existência desse conceito. Inspiração de obras artísticas em todas as épocas, da literatura à música, da filosofia à religião, o tempo é uma referência que nos localiza no mundo.

Na vida cotidiana, costumamos focar em uma ou outra camada de percepção do tempo. Se a atenção fica no passado, diz-se que abrimos espaço para a depressão. Se apenas projetamos, vivendo no futuro, a ansiedade é inevitável. Só nos sobra o presente, que é basicamente o agora, este instante único e inapreensível, para experimentarmos a vida.

Apesar de ser uma dimensão tão intrínseca que se confunde com a própria existência, nosso tempo é vendido. Trocamos nossa força de trabalho geralmente por dinheiro. Pois é assim que funciona o modelo tradicional das organizações. Em muitos casos, esta é uma relação um tanto cruel, pois sabemos que em várias atividades produtivas, a sazonalidade do volume de trabalho é uma característica inegável. E que pessoas mais preparadas e focadas podem concluir um trabalho com a mesma qualidade em menos horas. Seria justo, então, que quem se dedica e consegue cumprir com suas entregas mais cedo tenha como recompensa mais tempo livre? Multinacionais como a Microsoft adotam entendimento semelhante. Órgãos públicos, como tribunais do Distrito Federal e o Tribunal de Contas da União, também.

A gestão de uma empresa, até quando muito bem planejada, não é onisciente. Mesmo com todos os mecanismos de controle do tempo que a organização disponha para conduzir seus processos. Por isso não é raro acontecer que funcionários passem horas esquentando cadeira, só esperando chegar a hora de desligar o computador e ir embora. Apenas para cumprir uma carga horária – carga, nesse caso, é um termo muito apropriado.

Além de ser uma fonte de angústia, tal modelo é bastante custoso. Flexibilizar horários e permitir ao colaborador a autogestão do seu tempo seria um grande passo rumo a um modelo mais coerente. E moderno. Para essa alternativa funcionar bem e sem conflitos, o contrato deve ser muito claro entre as partes, com as entregas de ambas as partes muito bem acertadas.

É claro que essa perspectiva não se aplica a todos os segmentos. Uma fábrica com milhares de funcionários precisa organizar a produção mediante uma contagem rígida do tempo. No setor de serviços e comércio, os empregados devem estar disponíveis em determinada faixa de horário para cumprir seu propósito de oferta e venda. Ok, mas também sabemos que na economia dos novos tempos, postos de trabalho na indústria estão sendo extintos por conta da automação e o varejo online cada vez mais tira relevância das lojas físicas.

É assustador à primeira vista quando pensamos no drama social do desemprego, mas é uma situação irreversível. Que, no entanto, pode ser amenizada exatamente com a redução das horas no contrato de trabalho, bandeira amplamente defendida em prol da criação de vagas. Para se tornar realidade, essa solução depende não apenas da boa vontade das empresas, mas também de incentivo dos governos. Com a redução da carga tributária, viabiliza-se novas contratações sem perda de produtividade.

No atual contexto de transformações, marcado por quebras de paradigmas tão profundas, é preciso repensar toda nossa relação com o trabalho e adotar novos modelos, tanto mentais como de efetiva produtividade. Assim, podemos evoluir em direção a uma integração mais orgânica e inteligente entre a vida e a atuação profissional. O tempo é uma dádiva que não é recuperada quando perdida e não deve ser objeto de barganha pura e simplesmente. O tempo de uns pode até custar mais do que o de outros. Mas têm o mesmo valor. O valor do humano, da vida e da existência. Precisamos respeitar o tempo para viver em plenitude.

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo

* Os versos que abrem e fecham este artigo são da canção Oração ao tempo, composta por Caetano Veloso.

Photo by Collin Hardy on Unsplash.

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