Mulheres profissionais: resistência extra contra assédio e desigualdade.

Opinião
5 de julho de 2018

O apresentador de um programa popular na TV aberta comete um ato de violência física, ao vivo, contra uma de suas colaboradoras. Dias antes, o mesmo havia lamentado a existência da Lei Maria da Penha, que seria então o único motivo que o impedia de esmurrar sua produtora. Tudo em tom de piada.

A enxurrada de atrizes na poderosa fábrica de sonhos chamada Hollywood escancarou um esquema de assédio assustadoramente comum. Caso de visibilidade mundial e de grandes reações. E que não tinha vindo à tona até que a primeira mulher teve coragem. Para enfrentar a exposição na mídia, o julgamento moral e o risco de perder contratos atuais ou oportunidades futuras, é preciso ter peito.

Tradicionalmente dominada por homens, a cobertura esportiva dos jornais diários e de eventos extraordinários, como a Copa do Mundo, tem sido feita cada vez mais por repórteres mulheres. E vemos estarrecidos elas serem assediadas por torcedores que acham-se inexplicavelmente no direito de festejar invadindo o espaço pessoal da profissional no momento que exerce seu ofício.

Três episódios recentes de grande repercussão. Três segmentos profissionais diferentes. Três lamentáveis situações que mostram o quanto a mulher está exposta ao domínio, simbólico e de fato, do poder masculino na nossa sociedade:

  • Oscila perto de 5% as cadeiras de CEO’s pelo mundo ocupadas por mulheres, segundo levantamento da Forbes.
  • Pesquisa da Ipsos Mori revelou que o assédio sexual é visto como o maior problema enfrentado pelas profissionais em todos os países do mundo.
  • O IBGE mostra que o salário médio pago aos homens é 32,5% maior que o recebido por elas.
  • O Brasil está na posição 152 no ranking de representatividade feminina na política. Apenas 10,5% do nosso Congresso é composto por mulheres.

Graças à internet, informações cruciais e episódios criminosos ganharam notoriedade. E os responsáveis têm mais dificuldade de sair impunes. Ao mesmo tempo, é importante ponderar que do outro lado da moeda está o injustificável linchamento de acusados sem provas, investigação ou culpa comprovada. Quem exige justiça e respeito às leis deve estar atento para não cair na armadilha do sensacionalismo e da acusação precipitada.

A suposta brincadeira do apresentador de TV; o assédio à repórter esportiva; e torcedores que instigam mulheres a repetir frases de conteúdo altamente misógino sem entender a língua em que estão falando. Tudo isso aconteceu em um contexto de entretenimento e festa, que é mais leve e no qual deveria ser permitido um limite ético e moral menos rígido. Sim, deveria. Mas não é. E isso não tem nada a ver com ser politicamente correto, apenas. Pois estamos em um mundo em que nem de longe é possível comparar a força que homens e mulheres têm sobre a estrutura da sociedade. Em especial nesses segmentos em que o tom da narrativa é altamente machista, inclinado a reforçar a objetificação da mulher e legitimar posições de privilégio do homem.

Assédio sexual no mundo corporativo

Os casos de assédio sexual nas empresas são muito frequentes e acontecem sempre com o intuito de exercer influência e confirmar uma posição de superioridade. A maioria quase absoluta dos casos tem a mulher como vítima de um superior hierárquico homem. Intimidação, constrangimento e investidas de teor sexual que pressupõem risco de demissão ou exposição pública da pessoa assediada configuram o assédio, que é crime e deve ser denunciado.

Para tirar dúvidas das pessoas que desconfiam estar passando por isso no ambiente de trabalho e indicar as atitudes que devem ser tomadas para denunciar um caso, o Ministério Público do Trabalho, juntamente com a Organização Internacional do Trabalho, criaram uma cartilha sobre o assunto.

O mundo corporativo é um reflexo do que ocorre em todas as esferas sociais. As mulheres ainda são o alvo principal da violência doméstica e de agressões letais baseadas apenas no fato de serem mulheres. Medo do estupro e do abuso em festas, no transporte público, nas ruas e nos campi universitários faz parte da vida de todas. Não importa o meio, se urbano ou rural. E nem a idade. Pesquisa recente do Datafolha mostra que 4 de cada 10 mulheres com mais de 16 anos declaram já ter sofrido algum tipo de assédio sexual.

Tratar de forma desigual os desiguais. Este é o princípio constitucional e bastante lógico que ajuda a entender o porquê da necessidade de expor e denunciar a brutalidade com a qual as mulheres ainda são tratadas. A discriminação fundamentada no sexo e a desigualdade no ambiente corporativo, onde as relações são estruturalmente machistas, são visíveis e devem causar mal-estar em uma sociedade que se pretende civilizada.

A resistência existe e está aí. O ideal é que em breve sobre apenas a outra parte do conceito: tratar de forma igual os iguais. Simples? Nem tanto, mas é urgente, necessário e possível.

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