O difícil equilíbrio entre competição e colaboração

Liderança, Opinião
26 de novembro de 2019

Trabalhar faz parte da existência humana, seja por necessidade material, social ou de subjetivação. Raro é alguém que nunca precisou desenvolver uma atividade em troca de algo. Nem que essa atividade fosse caçar e coletar, motivado pelo instinto de preservação. Ou de pintar nas paredes das cavernas para interpretar a natureza, expressar e transmitir ideias.

Houve na história diversos líderes que construíram estruturas de colaboração social para proteger comunidades, originando núcleos de convivência cada vez maiores.

Buscamos um ofício para sobreviver, construir um projeto de vida ou nos realizar cumprindo uma função que dê sentido à existência. É um fenômeno que vem ocorrendo desde a pré-história e passou por tantas milhares de transformações quanto o número de anos que nos separa desse período.

Passamos por diversos modelos de produção, trabalho e desenvolvimento. Por muitos séculos foram regra as relações de exploração e da subserviência do modelo feudal. As ultrapassamos em busca da modernização. Veio o advento capitalista e o paradigma trabalhista mais parecido com o que conhecemos hoje… Enfim, a história é longa. E nunca parou de avançar.

Voltando ao presente, é difícil imaginar um momento de indefinição tão grande sobre o sentido e o futuro do trabalho como o que vivemos hoje. E essa sensação de incerteza tem sido causa de muitos transtornos sociais e psíquicos. As origens são profundas e complexas. Por isso é tão difícil encontrar soluções. Não é só o dinheiro, não é só o status, não se restringe ao desafio de achar o que fazer com nosso tempo de vida. A relação das pessoas com o trabalho vai muito além.

Em quê trabalhamos ou se não trabalhamos diz muito sobre nós.

Um estudo recente, cuja análise foi publicada no jornal Folha de S. Paulo em 12/11/19, propôs-se a entender como o trabalho, ou a falta dele, é motivo de sofrimento emocional. Realizada por uma consultoria organizacional em parceria com Ruy Braga, sociólogo e professor da USP, a pesquisa buscou avaliar o sentimento dos entrevistados sobre o impacto que a vida profissional tem sobre a saúde mental. O questionário aplicado revelou uma média ponderada de 7,5 (em uma escala de 10) na concordância dos entrevistados sobre quanto o fator trabalho contribui ou já contribuiu em casos de adoecimento psíquico em suas vidas.

Estresse, ansiedade, desânimo, abuso de substâncias ilícitas ou controladas fazem parte do cotidiano de quem sofre as pressões derivadas do desemprego, precariedade do mercado de trabalho, ausência de lideranças empáticas, velocidade das transformações tecnológicas, falta de seguridade social, entre outros aspectos sociopolíticos.

Nada disso é, de fato, uma surpresa. Todos nós já tivemos dificuldades, de origem íntima ou externa, relacionadas ao trabalho. Também não faltariam exemplos na nossa família ou rede de amigos para citar. O que o estudo reforça é como a questão virou um problema sério de saúde pública. Para mitigar consequências tão desalentadoras é urgente que gestores e líderes se sensibilizem em prol de um mundo mais conectado com valores humanos. Pessoas, grupos, equipes em um ambiente menos hostil têm um potencial renovado de criar e produzir. Sem precisar adoecer.

Não é só o dinheiro, não é só o status, não se restringe ao desafio de achar o que fazer com nosso tempo de vida.

Pressão por resultados, eficiência a qualquer custo, acúmulo de funções e responsabilidades, insegurança e instabilidade ainda são alicerces sobre os quais muitas empresas constroem suas equipes. Em vez de trabalhar para construir outro modelo possível, de mais preocupação com o humano envolvido em cada processo, o que ainda prevalece é uma cultura de medo, competição e excessos. Mais do que prevalecer, essa fórmula é bastante fomentada, vendida como a única possível e, assim, perpetuada.

É urgente que gestores e líderes se sensibilizem em prol de um mundo mais conectado com valores humanos.

Uma nova economia, mais de acordo com valores de respeito, preservação e cuidado precisa estar na pauta de quem tem o poder econômico de mudar o que não está fazendo bem pra ninguém. Grandes possibilidades também estão na mão dos jovens, com suas inquietações e ideais de um mundo para ver e viver melhor.

Afinal, convivemos em sociedade. E apesar de muitos defenderem que a competição leva à evolução, só chegamos até aqui porque lá nos primórdios, quando habitávamos cavernas e o os perigos da natureza eram desafiadores, assustadores e incompreensíveis, o poder da cooperação mostrou ser indispensável para sobrevivermos.

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