O transporte individual, o trânsito nosso de cada dia e os caminhos da mobilidade

Opinião
9 de junho de 2017

Por Fellipe Freitas*

As paredes do escritório caíram. Muitas atividades podem ser feitas a distância, em casa, em um café ou na sala de espera do aeroporto. Basta uma conexão com a internet e equipamentos que já fazem parte do cotidiano. Mas a disponibilidade da tecnologia é suficiente para um bom aproveitamento do tempo e produtividade? Organização do tempo, foco e disciplina também devem entrar nessa fórmula.

Claro que não são todos os trabalhos que permitem essa rotina flexível. Também não são para todos os perfis comportamentais. A troca pessoal é muito importante no desenvolvimento de diversas atividades, mesmo que vídeo conferências, comunicadores instantâneos e outros recursos tecnológicos permitam uma agilidade impensável há alguns anos atrás. Como tudo na vida, equilibrar as necessidades e respostas é o caminho mais propenso a dar certo.

Para além dessas questões, ter flexibilidade de horário e lugar ajudaria a resolver um problema que desgasta o dia a dia de qualquer pessoa: o trânsito!

O Brasil, em comparação com países desenvolvidos, nunca investiu suficientemente em transporte público. Então, a solução mostrou-se óbvia durante a abertura econômica das últimas décadas: o veículo motorizado individual. Isso faz com que nossas vias de acesso estejam constantemente entupidas, caóticas, paradas. O ingrediente principal do estresse urbano.

O trânsito é algo tão fundamental na vida dos cidadãos que o tema é objeto de estudo não só da engenharia ou do direito, mas também da filosofia, antropologia, ecologia, semiótica… Vivemos numa sociedade com cada vez menos tempo disponível. É preciso correr para não ficar para trás. Daí surgem tentativas constantes de fazer com que os deslocamentos sejam mais rápidos e a todo custo.

Na última década foram milhões de novos veículos e outros milhões de novos condutores que chegaram às ruas sem estarem devidamente preparados. Prova disso são os índices de violência no trânsito, diretamente proporcionais a esse aumento. A consciência e a educação não acompanharam o ritmo. Não são só os carros. Quem usa bicicleta, metrô, ônibus ou é simplesmente um pedestre a caminho do trabalho também são parte desse cenário.

Objeto motorizado de desejo

O carro domina as ruas, avenidas e rodovias das cidades. Mas além de um objeto com função prática, o carro é um item de desejo. É simbólico e fetichista. A posse do veículo motorizado faz com que seu dono sinta-se com mais direitos sobre o espaço público. É o principal símbolo de poder e sucesso de uma sociedade baseada no consumo.

Márcia Tiburi, filósofa e ensaísta, avalia em um artigo para a revista Cult (Mania de carrão, ed. 178) a intensidade dessa relação: “Os carros nas grandes cidades congestionadas surgem como marcadores de lugar: quem pode mais ocupa mais espaço em relação a quem pode menos […] Da bicicleta ao carro blindado, do ônibus que sai da periferia à Ferrari, cada um é reduzido ao transporte que usa”.

A imagem de poder que envolve o carro é formada em várias etapas de construção de sentido. A potência, a sensação de segurança e as possibilidades de aventura vêm relacionadas a um modelo social há muito saturado. Começa com o brinquedo “óbvio” para os meninos: um carrinho, ou muitos deles, de pequenos colecionáveis a tratores e caminhões.

Qualquer solução que buscamos para melhorar nossa qualidade de vida, a satisfação no trabalho e o tempo que dedicamos à vida pessoal passa pela questão da mobilidade. Queremos sempre a forma menos desgastante de nos deslocarmos para ir de um lugar a outro. Não estamos sozinhos nessa jornada. Um olhar de solidariedade ao outro nos faz perceber que, no fundo, todos queremos um lugar melhor para viver, trabalhar, nos relacionar e ser feliz.

* Publicitário, produtor de conteúdo, redator nas horas vagas e nas não vagas também. Vê o cinema como a melhor janela de autoconhecimento e de compreensão do mundo. Editor do site Viviane da Mata e colaborador do blog.

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