A busca por uma gestão mais humana na saúde pública.

Gestão
5 de abril de 2018

Em um país tão diverso como o Brasil, poucas coisas conseguem atingir algum grau de consenso. Uma delas é a questão da saúde pública. As notícias veiculadas sempre em tom de alarme, a lente de aumento nas experiências ruins de quem precisa de atendimento e o investimento supostamente insuficiente compõem o cenário.

Apesar de estarmos longe de um modelo ideal de assistência à população, é importante notar os avanços nas políticas de saúde que têm como objetivo melhorar a gestão dos serviços. Por exemplo, a separação do atendimento em três diferentes níveis: básico, emergencial e especializado. Este modelo tende a desafogar os hospitais, que devem ser procurados apenas no último caso.

Por outro lado, na busca por um atendimento mais humanizado e a fim de reduzir o sofrimento de quem está doente, existe uma série de terapias complementares no rol de procedimentos oferecidos pelo SUS. Com a recente inclusão, em 28 de março, de mais 14 práticas, atualmente são 19 as técnicas reconhecidas pelo sistema. Quiropraxia, musicoterapia, cromoterapia, meditação, fitoterapia, reiki e acupuntura (a campeã disparada em procura) são algumas delas.

O blog Viviane da Mata conversou com o especialista em Medicina Tradicional Chinesa Eli Formiga sobre a tendência cada vez maior em considerar terapias alternativas como formas eficazes de cuidar da saúde, evitar e tratar doenças.

 

O Ministério da Saúde autorizou a inclusão do tratamento com florais, aromaterapia, bioenergética e cromoterapia no SUS. Imediatamente o Conselho Federal de Medicina questionou a decisão. A que se deve essa resistência?

Imagino que há nessa atitude uma certa defesa de mercado e uma visão bastante ortodoxa da saúde. Muitas pessoas não têm vontade ou interesse de pesquisar mais sobre práticas terapêuticas complementares. O conhecimento sempre melhora o entendimento do mundo. Por exemplo, são várias as comprovações científicas dos resultados da cromoterapia.

A acupuntura é uma das práticas complementares mais buscadas. Uma técnica milenar que apenas recentemente passou a ser mais aceita. Mesmo com tantos avanços tecnológicos, qual a importância de resgatar técnicas tradicionais?

A medicina tradicional costuma trazer para o diagnóstico e tratamento uma visão mais holística da saúde do corpo. Muitas vezes, procedimentos menos invasivos, que valorizam a escuta e procuram perceber corpo e mente de forma indissociável, são a melhor opção de tratamento.

Realizar algumas dessas terapias, mesmo sem estar doente, pode prevenir enfermidades, evitando que surjam complicações e a necessidade de remédios?

Depende do caso. Cada problema exige um tratamento que envolve a atuação de profissionais de diferentes especialidades e recursos medicinais disponíveis. As terapias complementares podem ser indicadas em um pré-atendimento ou para interromper a evolução de uma doença.

Sabe-se que o lobby da indústria dos fármacos é bastante poderoso. Como convencer as pessoas que elas podem se beneficiar de outras formas cuidar da saúde?

Trata-se de uma mudança cultural que passa pela educação e pelo entendimento do próprio corpo. Apesar de tudo, as pessoas estão mais conscientes de que o estado emocional afeta significativamente o corpo, provocando doenças ou, por outro lado, ajudando a curá-las. O papel da alimentação e a questão dos efeitos colaterais a curto e longo prazo das medicações também estão sendo mais bem compreendidos, principalmente devido ao amplo acesso à informação.

Uma das polêmicas mais acirradas ainda é sobre a homeopatia. De um lado, pessoas comprovadamente beneficiadas. Do outro, aquelas que a desacreditam completamente. Qual sua posição a respeito?

Há, de fato, muitos relatos de pessoas beneficiadas pela homeopatia. Na minha carreira posso afirmar que houve uma taxa de 70% de sucesso entre os que fizeram uso dessa terapia com meu acompanhamento. Um componente essencial da receita homeopática é fazer uma escuta atenta da situação do paciente para um diagnóstico preciso. Quando bem conduzido, é um tratamento bastante eficaz, dependendo do tipo de doença.

A meditação é outro exercício milenar que tem sido cada vez mais indicado para pessoas com transtornos depressivos e quadros de ansiedade. É possível abrir mão dos remédios e dedicar-se somente a essa técnica para encontrar a cura?

Aqui também depende de cada caso. Sou um adepto convicto e defensor da meditação para auxiliar no tratamento de muitos males modernos. A técnica pode e deve ser aplicada junto com as terapias tradicionais. Acredito que as doenças, quando não têm origem em algum trauma, devem muito à forma como interpretamos o mundo, nossos modelos mentais. A meditação ajuda a limpar e clarear a mente para enfrentar a vida com mais foco e serenidade.

Apesar de toda a resistência, o Brasil é líder no uso de terapias alternativas de saúde. Só pelo SUS, hoje são 19 práticas reconhecidas. A que você acha que se deve esse cenário?

Somos, sem dúvida, um povo mais espiritualizado, temos um contato maior com a natureza e uma cultura mais aberta ao diferente. A herança africana, historicamente mais conectada com a terra, às plantas e aos animais contribui bastante na formação dessa personalidade. Como o país é enorme, em muitas áreas, a sabedoria popular ainda é o único recurso com o qual populações inteiras podem contar para tratar da saúde.

Você atende diariamente pacientes com diversas queixas, dores físicas e emocionais, dificuldades de lidar com as expectativas de um mundo que corre o tempo todo. A que conclusões chegou depois de mais de duas décadas tratando essas questões?

É urgente ao ser humano buscar remédios para as dores, mas no mundo do imediatismo não damos tempo nem atenção necessária para entender os motivos e origens do desconforto. Percebo que o aumento das exigências profissionais, familiares e sociais, de uma forma geral, tem provocado uma desconexão com o próprio corpo. O padrão competitivo é adoecedor sob vários aspectos, gera estresse, depressão, enxaqueca, hipertensão, insônia e diversas outras dificuldades. Já passou da hora de recuperarmos o contato íntimo, sincero e profundo com nós mesmos, evitando captar todos os sinais que vêm do mundo externo. Autoconhecimento é a chave que desliga muitos padrões nocivos de comportamento. E evita doenças.

Photo by Amanda Flavell on Unsplash

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