Clichês e contextos do empreendedorismo

Opinião
3 de outubro de 2017

Por Fellipe Freitas

Inovar e empreender. Largar o emprego e ir atrás dos sonhos. Parar a rotina e tirar um ano sabático. Estas ideias tornaram-se lugar-comum em artigos, reportagens, aconselhamentos e são quase onipresentes nas consultorias de coaching. A maior parte do conteúdo midiático produzido serve para exaltar caminhos assim e aqueles que os tomaram. Por outro lado, promove certa insatisfação e frustração naqueles que vivem um contexto de vida no qual renunciar a um modelo tradicional de trabalho não é possível.

Conhecer a história de sucesso das pessoas que levaram a cabo e com coragem os desafios do desenvolvimento pessoal e profissional é muito inspirador. Buscamos identificação nas ideias e sonhos dessas pessoas que conseguiram chegar lá. Eleger e seguir nossas referências aumenta a esperança e pode trazer o insight que faltava para tomar uma decisão.

Mas quantas pessoas podem, de fato, tomar decisões que exigem a reestruturação não só do orçamento mensal, mas pedem uma reviravolta de comportamento e visão de vida? O perfil ideal para isso estaria restrito a uma determinada idade ou geração? Pessoas com nível de escolaridade baixo podem sonhar também? É preciso ser solteiro, não ter compromissos com uma casa ou filhos? Imprescindível ter uma poupança ou um núcleo familiar financeiramente sólido? Bem, não necessariamente.

Certamente alguns fatores familiares e educacionais são decisivos para quem pretende mudar o rumo da carreira. Certas garantias não só ajudam a tomar a decisão, como também influenciam o sucesso da iniciativa. Ter a segurança de que, caso as coisas não aconteçam como previsto, não será preciso morar debaixo da ponte, possivelmente estimula a “coragem”. Trabalho, comprometimento, persistência e um plano bem traçado não deixam de ser influenciadores diretos do resultado de uma mudança. Mas não podem ser considerados fora de um contexto maior de variáveis.

Recentemente, ao defender uma renda mínima universal, o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, lembrou que, se tivesse que se preocupar com seu próprio sustento financeiro na faculdade, não teria como se dedicar à criação do sistema que hoje é a maior e mais lucrativa rede social do mundo. Independentemente da solução que ele coloca para a questão, o fato é que a maioria das pessoas está a anos-luz de compartilhar as condições de um Zuckerberg para empreender, inovar e ser sua própria empresa.

Existem atitudes que uma pessoa insatisfeita com seu trabalho ou rotina pode adotar para ser mais realizada. Se a jornada começar depois da decisão tomada, as dificuldades serão maiores. Planejar, racionalizar, entender e aceitar – mesmo que temporariamente – as limitações do seu contexto é um ótimo começo.

Fuja da tendência de se frustrar com aquelas histórias de sucesso que nem mesmo chegam perto das suas possibilidades. Sem conformismo, mas com paciência e inteligência, você pode encontrar seu próprio lugar no mundo. E ser mais feliz e realizado do que muitos que têm uma trajetória aparentemente incrível para contar. Ela talvez não sirva sob nenhum aspecto para sua vida.

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